sexta-feira, 1 de outubro de 2010

#6 LETTER TO A STRANGER

Uma carta para um estranho

Não sei ao certo o que me deu naquele dia para ter tomado a atitude que tomei.
Estava fraca, insegura e com o medo a paralisar-me o sangue e o raciocínio. Na verdade, nem sei ao certo se seria mesmo o medo ou se seria apenas o choque por ter, mais uma vez, conhecido e experienciado uma parte da dura realidade em que vivemos nos dias de hoje. Naquele momento não estava minimamente preparada para o que acabara de presenciar. Jamais pensaria que uma coisa daquelas era possível de acontecer da forma como ocorrera e, logo estava a acontecer comigo.
O meu coração começou a bater depressa, muito depressa e da minha boca saíram palavras em minha defesa e em tom elevado. Infelizmente, aquilo que observei de seguida, embora não permitisse confirmar o que a minha mente pensara, tornou-se mais forte do que eu.
Rapidamente apercebi-me de que as palavras que dissera já haviam perdido o seu efeito. Agora, a insegurança reinava no meu olhar e o meu coração começou a bater cada vez mais depressa e mais descontrolado. Dei um ou dois passos em frente mas a voz atrás de mim continuava. O meu corpo ficou frio e agarrava-me com força aos livros que trazia na mão.
De repente, algo aconteceu. E é isso que eu nunca vou conseguir perceber por que razão o fiz. Dirigi-me para o meio da estrada e bati no vidro de uma janela de um carro. Do seu carro.
Atenciosamente, baixou o vidro e perguntou-me o que queria e, eu limitei-me a dizer que me estavam a perseguir, apontando com o olhar para o outro lado da estrada. O rapaz já tinha desistido e voltado à sua vida propriamente dita. Corria depressa, atravessando a estrada para o outro lado da margem. O senhor disse-me que já me encontrava em segurança e que podia continuar o meu caminho sem me preocupar. Mas as suas palavras ou a forma como as disse, não me convenceram. Continuei, insistindo várias vezes, dizendo que não conseguia prosseguir. O medo havia-se apoderado de mim e tinha congelado todo o meu raciocínio e consciência.
Uma vez com o inconsciente a tomar conta de mim, pedi que me levasse a casa. Não sei como tive a coragem (ou a covardia, depende do ponto de vista) de o fazer, mas curiosamente não senti nenhuma hesitação, nem medo quando o fiz, como se tratasse da coisa mais normal do mundo: pedir boleia a um estranho. Desde crianças que somos ensinados a não confiar em estranhos, a não aceitar, nem pedir boleias a quem não conhecemos, por exemplo. Mas eu fi-lo (ou a minha inconsciência fe-lo por mim). O barulho que a porta do carro fez ao ser fechada, fez-me acordar para a realidade. A minha consciência havia voltado, mas agora poderia ser tarde demais. Questionei-me, no meu pensamento: "Mas que raio estou a fazer neste carro?". A viagem foi tão curta, como foi ao mesmo tempo tão longa. Lembro-me de lhe ter agradecido vezes sem conta. Estava perturbada e algo incomodada comigo mesma. Lembro-me também de lhe ter pedido desculpas várias vezes.
Quando entrei em casa, senti um alívio tremendo por duas razões: tinha-me safado de uma tentativa de assalto e a história de ter pedido boleia a um estranho, tinha acabado bem.
Mas de repente, o meu consciente tornou-se ainda mais duro comigo. Senti o maior arrependimento que alguma vez sentira a gelar-me o sangue. Senti vergonha pelo facto do quão irresponsável havia sido ao tomar aquela atitude. Caí em mim mesma, derramei lágrimas até os meus olhos ficarem vazios. Recompus-me, mas as imagens da cena que havia experienciado nesse dia ainda me acompanharam-me nos seguintes, apesar de apenas ter conseguido partilhar esta história com duas pessoas.
Hoje, escrevo-lhe esta carta. Sei que é extremamente improvável que algum dia a leia, pois nem o nome um do outro chegamos a saber. No entanto, se isso acontecer, poderá ter a certeza que cada palavra que lhe dirigi, foi sincera. Não digo que havia duvidado de mim, mas se o fizesse também se encontrava no seu direito. Afinal de contas, também o coloquei numa posição complicada. Estávamos de igual para igual: dois estranhos que arriscaram em confiar o destino um no outro. E é tudo.

If we do the unthinkable would it make us look crazy?

Com amor, Patrícia.


8 comentários:

  1. Quando é que isso aconteceu ??

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  2. não há muito tempo.. mas o que importa a data agora :) ?

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  3. Tu foste bem corajosa de tomar tal atitude viu!

    Beijos e boa semana!

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  4. Coisa linda esse blog, vou passar mais vezes.

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  5. Amei o seu blog...se quizer seguir o meu também,é só dar uma passadinha la.Bjos

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  6. Carta linda (:
    Ahah, viciada mesmo, podes crer xD

    Até a minha guitarra do Guitar Hero personalizei para ficar igual à do Synyster Gates dos A7X e tenho um desenho dele feito por mim na capa do caderno de Inglês lol Um ida destes tiro foto e ponho no blog.
    Mas merecem toda a minha atenção e vício, são deuses da música, uma enorme banda mesmo o:

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